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5 | Silêncios que o coração carrega

  • Foto do escritor: Família
    Família
  • 20 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 8 de mai. de 2025

Enquanto a vida crescia dentro dela, por dentro tudo parecia desmoronar.



A gravidez não foi apenas um divisor de águas nos planos de Anna Júlia — foi também um marco profundo em seu corpo, sua mente e sua forma de sentir o mundo. À medida que os meses avançavam, as transformações físicas se tornavam visíveis, mas as emocionais eram mais difíceis de notar — e mais difíceis ainda de lidar.


Ela sentia medo. Ansiedade. Uma culpa silenciosa e persistente que a fazia acreditar, equivocadamente, que não era digna daquilo que estava vivendo. Preocupava-se demais com as mudanças no próprio corpo, com o que os outros pensavam, com a imagem que projetava. A vaidade de menina dava lugar à insegurança de uma jovem que, de repente, já não se reconhecia no espelho.


As dificuldades emocionais começaram a se intensificar. A alimentação virou desafio, o quarto virou refúgio — ou prisão. Aos poucos, Anna foi se afastando do mundo. Não queria chá de bebê, nem ensaio fotográfico. Sentia que não merecia nada disso. Que celebrar sua gravidez era quase um erro.


Ainda assim, ela não queria abrir mão dos estudos. Queria manter a vida o mais perto possível do que era antes. Mas quando procuramos apoio na escola, o acolhimento que esperávamos se transformou em julgamento. A direção, de forma hostil mencionou que não facilitaria nada por causa de uma gravidez — que aquilo não era doença, que era “frescura”.


Com isso, Anna passou a chegar atrasada diversas vezes e, ao ser impedida de entrar, perdeu o pouco de estabilidade emocional que ainda tentava manter. Parou de frequentar as aulas. E o silêncio que habitava nela ficou ainda mais profundo.


Nos últimos dias da gestação, um lampejo de força reacendeu: preocupava-se com o enxoval, queria preparar tudo para a chegada do Davi. Mas ficou doente — e isso acabou antecipando o parto.


O que se desenrolava dentro dela ia muito além da gestação. Era uma dor que se escondia atrás dos olhos, um peso que não se media em quilos, um cansaço que nenhuma explicação dava conta de justificar.

“Às vezes, o coração se cala, mas o corpo fala — e tudo nele grita por cuidado.”

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